Com frequência, seja em eventos presenciais, aulas ou pelas redes sociais, me perguntam se tenho esperança de que teremos melhorias na credibilidade das certificações.
As certificações vêm nos servindo – por décadas – como um selo de confiança.
Certificações são, em essência, um pacto entre organizações, organismos de avaliação da conformidade, acreditadores, sociedade e consumidores de que determinados produtos, serviços, processos ou sistemas de gestão, entre outros, atendem determinados requisitos.
Não é de hoje que alguns questionamentos procedentes, diga-se de passagem, colocam em xeque esse pacto. Escândalos corporativos, uso indevido de selos, certificações superficiais e o fenômeno do greenwashing abalam a confiança que deveria ser natural nesses mecanismos. O desafio é global: como assegurar credibilidade em cenários complexos, com muitos atores e uma profusão de informações ?
No Brasil, o cenário apresenta pelo menos um ingrediente adicional. Segundo um estudo recente (2022) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre confiança nas Américas, o país atingiu cerca de 4,7%, patamar muito próximo do índice identificado pela CNI em 2017. Esse dado coloca em evidência uma questão estratégica: como manter a credibilidade das certificações em um ambiente de confiança estruturalmente baixa ?
As certificações nasceram para resolver um dilema fundamental: a assimetria de informação. Quando um cliente, consumidor ou investidor não tem condições de avaliar diretamente a qualidade ou conformidade de algo, a certificação surge como garantia externa, independente e imparcial.
Entretanto, três fatores ameaçam essa premissa:
- Proliferação de selos – a multiplicação de certificações com base em diferentes critérios, níveis e profundidades contribui para uma certa confusão.
- Conformidade como formalidade – quando a certificação é tratada como commodity, perde sua essência de imparcialidade e rigor.
- Transparência – em contextos em que não se difundem – efetivamente – informações profundas sobre o processo de avaliação da conformidade, se tende a perceber as certificações com ceticismo, como parte de um certo “jogo burocrático” e não como instrumentos para transmitir confiança.
O risco é evidente: em vez de fortalecer a credibilidade, algumas certificações acabam reforçando a percepção de que se trata apenas de uma formalidade de fachada.
O desafio brasileiro: certificações confiáveis, em um ambiente de baixa confiança
O estudo do BID mostra que, na América Latina, os índices de confiança interpessoal e institucional já são baixos, mas o caso brasileiro é emblemático, onde apenas uma pequena parcela da população acredita no que é dito ou declarado oficialmente.
Nesse contexto, as certificações enfrentam um dilema:
- Como serem percebidas externamente como instrumentos legítimos de confiança ?
- Como serem percebidas internamente como algo que agrega valor e pode contribuir com a competitividade ?
- Como se diferenciar do mar de discursos, declarações e alegações que não se sustentam objetivamente ?
Naturalmente, como todo desafio complexo, a resposta exige algo além de Normas, procedimentos e acreditações.
Neste contexto, convém lembrar duas citações para balizar a análise desta questão.
“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou !”, Margaret Mead, Psicóloga e Antropóloga Norte Americana [1901 – 1978].
“Nunca irei a uma manifestação contra a guerra, se fizerem uma pela paz chamem-me !”, Santa Teresa de Calcutá [1910 – 1997].
Em suma, é preciso esse grupo de pessoas conscientes e engajadas para iniciar a mudança, e que não fique limitado a protestar contra a baixa (ou falta de) credibilidade.
A Auditologia, como abordagem e prática emergente, amplia o olhar sobre a avaliação de conformidade. Não se restringe a confirmar o cumprimento de requisitos aplicáveis, mas busca entender a organização como um sistema vivo, suas intenções, suas incoerências e sua capacidade real de sustentar aquilo que declara.
O Auditologista vai além de um auditor, é uma espécie de intérprete organizacional. Atua em três frentes que podem contribuir com a credibilidade das certificações:
- Diagnóstico profundo – constatações vão além da conformidade, identificando a coerência entre discurso, cultura e prática.
- Construção da confiança – traduz resultados de auditoria em linguagem compreensível e relevante para as partes interessadas, com forte ênfase em riscos, ampliando legitimidade.
- Reforço reputacional – contribui para que a avaliação da conformidade seja percebida não como formalismo, mas como evidência real de consistência organizacional.
Em outras palavras, a Auditologia procura contribuir – de fato – com o sentido de confiança coletiva como resultado da avaliação da conformidade.
Porque, no fim das contas, a avaliação da conformidade só tem valor se for capaz de responder, com legitimidade e transparência, à questão que mais importa:
“Podemos confiar?”
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